exercício com verbalizações

exercício com verbalizações
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes nem a oração de cada instante. É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz,
o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos severos conosco, pois o resto não nos pertence.
Cecilia Meireles

terça-feira, 18 de março de 2008

Em homenagem ao meu, ao nosso período mensal feminino.

" Para os meus olhos quando chorarem,
terem belezas mansas de brumas,
que na penumbra se evaporam...
Para os meus olhos quando chorarem,
terem doçuras de auras e plumas...
E as noites mudas de desencanto
se constelarem, se iluminarem
com os astros mortos que vêm no pranto...
As noites mudas de desencanto...
Para os meus olhos, quando chorarem...
terem divinas solicitudes
pelos que mais os sadrificarem...
Para os meus olhos quando chorarem
Verterem flores sobre os palures...
Para que os olhos dos pecadores
que os humilharem, que os maltratarem
tenham carinhos consoladores,
se, em qualquer noite de ânsias e dores,
os olhos tristes dos pecadores
para os meus olhos se levantarem...
(para mim mesma)"
Cecília Meirelles

Martha Paiva

domingo, 16 de março de 2008

...

pois é... o video nao quer abrir mesmo..
Comentario da Martha faço minhas as suas palavras.. tudo doia.. tudo remexeu, tudo meio que mudou, coragem para pensar no que não estava bom e vinha "empurrando com a barriga", mas.. amigos.. estou passando por um periodo de revolução...
Bem...

"Não me enviaram senão anjos, não me acontece senão milagres"

E a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar!!!!!

Bjus

Luana Ribas

quarta-feira, 12 de março de 2008

Desabafo

Sou um ser...
Um ser humano, as vezes demasiadamente humano, as vezes animal!!
Gosto muito da vida, mas muitas vezes tentei dar fim a minha,
Tenho problemas como todo mundo, mas gosto mais das soluções que os problemas trazem, no nosso grupo me sinto livre, sinto que saio da gaiola, sinto que posso voar!!
Eu nasci para voar!!
Os pés no chão?? Não sei muito bem o que é isso, apesar de tamanhas tentativas de me robotizar, me adequar ao certo, ao digno...
Estou hoje particularmente muito carente, muito sensível, muito muito... eu sou muito extremista, ou 8 ou 80, não sei ser mais ou menos, sou um ser inteiro, ou não sou nada...
Nossas não regras me fazem ver regras, me disciplinam a não faltar as aulas, a não chegar atrasada...
Encontrei em pouco tempo um lugar onde me sinto em casa no Rio de Janeiro, encontrei coisas familiares, pessoas bonitas e com olhos de um brilho imenso!!
Adoro!!!
Estou usando nesse momento o blog para o que ele serve... Zona Livre!!
A aula de hoje me fez pensar muito na minha vida, nas minhas atitudes e não atitudes, nos meus medos e anseios...
Não quero que me entendam, que me leiem ou que me escutem, não quero piedade, só quero desabafar..
A tanto tempo procuro meu lugar no mundo e meu lugar é no mundo inteiro, onde meus pés possam pisar o chão frio e minhas asas possam bater e voar pelo céu azul!!
Não sei do meu dia de amanhã e nem sei se quero saber, mas as vezes me preocupo com ele, mesmo sabendo que devo me ocupar ao invez de preocupar.. rsrsr
Sei que esse momento que vcs, os transgressores surgiram na minha vida foi crucial, assim como todos são... e espero que ele dure o eterno momento do agora!!
Sou meio louca ne?! Estou meio deprê hoje!! Mas nada como o nascer de um novo dia, um abraço amigo ou uma boa conversa!!
O que é ser ator??
É ser Humano, humano para poder ser humano, onde pode no palco ser e sentir tudo que sente normalmente e que tem que muitas vezes mascarar... essa foi minha resposta no teste do Instituto N. S. do Teatro hoje!!

Bjus a todos!!

Liguem não... sou um ser pensante...E hoje estou sangrando por dentro!!!

Luana Ribas

terça-feira, 11 de março de 2008

Um post da Martha de Paiva


A VOCAÇÃO

Eu não entrei na trilha dos saltimbancos por acaso, nem para ser um reles fazedor de graça. Eu queria consagrar a minha vida através de um imperioso apelo vocacional. Mas as pessoas, com suas receitas de sucesso, sem nenhum escrúpulo, sem nenhuma sensibilidade, vieram me falar de mil e um palhaços geniais. Tem um que comove multidões ao aprisionar um raio de sol pra levar pra casa... Tem um que faz balões de gás dançarem alegremente ao som de seu trompete... Tem um que ridicularizou um tirano, um assassino sanguinário que queria ser o senhor absoluto do Mundo... Tem um comprido, de calça pela canela, arcado pra frente devido ao pesado fardo da indignação contra a mecanização imposta ao homem moderno...Tem o magro sonso... Tem o gordo ingênuo e bravo... Tem os que dão piruetas, saltam, dão cambalhotas, levam bofetões... Tem os que tocam música clássica em garrafas vazias penduradas num varal... Tem outro... e outro... e outro... Tem aquele pobre palhaço louco que andava pelas igrejas jogando malabares diante das imagens da Santa Maria: esse, me disseram, morreu enforcado na cruz do Senhor Jesus Cristo, numa catedral gótica... Escutei, humilde, a história de cada um desses incríveis artistas que viajavam pelas vias da loucura. Saber desses palhaços... para mim, Bobo Plin, um palhacinho de merda que começava a engatinhar nos picadeiros mal iluminados das espeluncas... saber desses palhaços só serviu para me tolher. Quanto mais eu sabia deles, mais e mais Bobo Plin, o palhaço que eu queria ser, se enroscava nas minhas entranhas.A referência esmagava minha intuição e provocava auto-censura. A comparação, maldita inimiga da igualdade, fazia dos magníficos histriões elementos inibidores da minha criatividade. Agora, Bobo Plin não quer saber da façanha destes belos palhaços. Não quer vê-los. Nem quer saber de seus bigodes, sapatões, guizos, pompons, bolas, balões e babados. A magia dos grandes artistas não pode ser ensinada; são segredos que se aprende com o coração. Essa magia se manifesta quando se resolve fazer a própria alma. Para Bobo Plin se irmanar com os grandes palhaços que luziram nos palcos e picadeiros, tem que se esquecer deles pra sempre. Não pode recolher nenhuma indicação deixada no caminho. Tem que andar sem bússola, na mais tenebrosa escuridão. Qualquer brilho, qualquer estrela, qualquer sol, qualquer referencial vira um ponto hipnótico embrutecedor. E eu quero fazer a minha alma.

Plínio Marcos

Um solo que fizemos semana passada, ...



Márcia alcantara

segunda-feira, 10 de março de 2008

Música citada hoje!

Lembram que o Anselmo disse da musica que esta no meu msn?? Resolvi colocar a letra aqui para expor um pouco do que eu sinto, alias, minha vida é muito feita de musica, adoro letras que dizem o que eu quero dizer:

Adriana Calcanhotto - Senhas

Eu não gosto de bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
o que eu não gosto é de bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo a competência
Eu não ligo para etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem...


Luana Ribas

Sobre o sentimento que percebemos hoje nos depoimentos e trabalhos apresentados


Ensaio sobre Carlos Castaneda

O que dizer de uma filosofia que oferece uma nova visão de Mundo? Uma filosofia que não tem nenhuma ligação com nada conhecido? Uma filosofia que se baseou na experiência dos feiticeiros indígenas da América mas que entendeu toda a complexidade do mundo moderno?


Esse é o desafio que os críticos brasileiros não souberam ou não quiseram aceitar. Pois a revelação de Don Juan e tão radicalmente nova que poucos tiveram a coragem de, publicamente, declarar seu amor por ela. Marília Pera, por exemplo, foi ridicularizada por usar alguns textos dos livros de Castaneda no seu show Feiticeira. A revista Veja divulgou uma entrevista de Castaneda, mais como "furo" de reportagem, por interesse comercial, do que por qualquer outra coisa.Assim mesmo o texto enquadra Castaneda como um autor tradicional (existe ate uma comparação com Borges).

Os livros de Castaneda não são literatura. Basta ler todos eles para se chegar a essa conclusão. É a divulgação de uma revelação espiritual, a primeira revelação espiritual da América. O problema dos críticos que a maioria deles não entendeu direito a revolução cultural que começou na década passada. Tem gente que ainda acha que rock e uma barulheira, que todos tomam drogas para se alienar, que as pessoas deixam crescer os cabelos por problemas freudianos elementares, e que tudo não passou de uma moda que o sistema tratou de aproveitar.

Esses preconceitos é que impedem as pessoas de entender uma mensagem tão profunda como e a revelação de Don Juan para todos nós. Tudo isso e muito revelador, pois quem não acredita na revolução (ou não sabe como localizá-la ) acaba lutando contra ela.

A mistificação, principal denúncia dos críticos a Carlos Castaneda é a coisa mais combatida por Don Juan, durante todo o ensinamento. A luta toda de Don Juan, segundo o relatório de Castaneda, e fazê-lo libertar-se dos equívocos que séculos de civilização cristalizaram na sua cabeça. Isso é que dá o carater de revelação, pois todas as revelações espirituais que conhecemos querem mudar a percepção das pessoas, querem mudar seu sistema de valores mudando a maneira de viver das pessoas.

Não foi em vão que Cristo disse para os seus discípulos: "Deixa tudo, Vem e segue-me". Cristo arrancava assim as pessoas de suas rotinas diárias e os iniciava nas coisas que essas rotinas adiam durante a vida toda. Levava-os para passear no deserto, atravessava os rios, ficar acordado à noite. Com isso Cristo fazia os discípulos mudarem a sua percepção de mundo, pois estavam sempre atentos, não sabiam o que iam comer, nem quando nem onde, seus pensamentos entravam em outra viagem, cheia de visões, de verdades, de premonições.

A filosofia oriental não age diferente. O guru esta sempre procurando despertar no seu discípulo uma nova percepção, pois a percepção normal está completamente embotada para a magia do universo. No fundo, a percepção normal é apenas o mais eficiente instrumento de poder. É através dela que um homem pode fazer o mesmo gesto até morrer, sem reclamar. É obstruindo a visão mágica do universo, que só vem através a atenção constante, que o poder escraviza os homens. E Cristo, Buda Maomé e outros foram exatamente contra essa dominação, que se faz dentro da cabeça de cada um.

O que o poder fez com Cristo por exemplo? Chamou-o de Deus e encerrou o assunto. E mandou queimar todos aqueles que quiseram provar que qualquer um poderia fazer o que ele fez, como curar doentes, passear pelas águas, desaparecer. A perseguição aos bruxos (que ainda não acabou) é apenas uma disputa de poder, ou melhor, e a guerra sistemática do poder contra a libertação do espírito. Pois se as pessoas conseguirem voar por cima dos telhados quem é que vai ficar trabalhando oito horas por dia?

Naturalmente, esse tipo de raciocínio não pode ser levado a sério pela mentalidade oficial, apesar do lado prático do poder se encarregar de limpar o terreno, o desprezo e a ironia são apenas formas sofisticadas de repressão muito eficiente na nossa época de extrema manipulação psicológica. Além disso, o poder prefere não se preocupar com coisas tão radicais como pessoas saírem voando per janela, pois confia exageradamente nas drogas permitidas, como a televisão, o automóvel, o álcool, etc. Todo esse enfoque ficou fora da cogitação dos críticos brasileiros tão preocupados com os modismos importados, sem se darem conta que os seus pretextos é que são modismos filosóficos vindos de fora. Pois, se não existissem preconceitos, todos aceitariam a idéia de que um desprezado índio yaqui , perdido num deserto, pudesse ter a clareza total sobre a vida do homem civilizado. E ainda mais: que propusesse uma forma de salvação individual e coletiva como única forma de romper com o círculo vicioso criado pela civilização nestes últimos milênios.

II

Mas que trata a revelação Don Juan exatamente? Trata da salvação do homem, como todas as outras revelações. Isto não quer dizer que ele "nasça perdido" por uma contingência natural, como quer a Igreja Católica com sua tese sobre o pecado original. Mas Don Juan admite que o homem nasça perdido por pertencer a civilização. E propõe a destruição da civilização de maneira original: destruindo a civilização dentro de nós. Isto é: não deixando que a percepção de mundo criado manipulado pela civilização, por milénios de opressão, siga mantendo nosso estado de espírito de impotência, vazio, dor, loucura.

Ele propõe que o homem lute por essa destruição, de maneira simples: não tendo medo da morte, rompendo as rotinas, sendo permanentemente atento a tudo e, principalmente, não perdendo o sentimento de ligação.com a terra. Propõe também o fim de toda obsessões. Algumas pessoas deixaram de ler o quarto livro, Porta para o Infinito, porque Don Juan aparece de terno. Esta é realmente sua maior lição. No momento em que Castaneda está totalmente convencido que ele é um índio, que se veste como índio e que jamais poderia viver na cidade, ou seja, quando a imagem de Don Juan vira um obsessão para ele, o bruxo aparece de terno para fazer Castaneda romper com ela. Para provar que "um homem de conhecimento" (aqui entramos no conceito específico de Don Juan) pode fazer o que quiser, desde que o faça com desprendimento, isto é , sem obsessão. Luís Carlos Maciel foi um dos jornalistas brasileiros que entenderam essa mensagem. Ele colocou na abertura do seu livro, Nova Consciência, a parte em que Don Juan explica a função do homem de conhecimento, que faz sua tarefa "impecavelmente" e quando a termina, se retira, sem remorsos nem dúvidas (fazer uma coisa impecavelmente é ter consciência da morte a cada momento e encarar cada instante da vida como "a última batalha sobre a terra").


E qual a tarefa de Castaneda ? É divulgar a revelação. Nota-se um crescente domínio da linguagem de livro para livro. Muita gente desistiu de ler Erva do Diabo, o primeiro livro, devido a, alguns defeitos, como a estruturação, a monotonia de algumas partes, em que Don Juan explica detalhadamente o uso das plantas. Aos poucos, conforme ia crescendo no conhecimento, Castaneda foi estruturando melhor os livros, sendo cada vez mais contundente. Uma Estranha Realidade ainda tem um pouco dos equívocos do primeiro livros, o que não acontece com Viagem a Ixtlan e Porta para o Infinito. Viagem a Ixtlan está recomendado para todos aqueles quem desistiram nos primeiros passos da viagem, pois seus primeiros capítulos são absolutamente objetivos, equivalendo, cada um, a uma martelada. E Porta para o Infinito consegue ser o melhor de todos os livros de Castaneda, não só pela excelente narrativa, como pela divulgação da parte mais assombrosa e radical da revelação.

É quando Don Juan revela que homem não se divide em corpo e alma ou espírito e matéria Ele propõe uma nova dualidade: o tonal e o nagual (pronúncia: naual) É preciso ter muito cuidado com definição de tonal e nagual, o mesmo cuidado que Don Juan teve ao explicar para Castaneda. Pode-se dizer que é através do nagual que o homem pode voar, se transformar em pássaro, enxergar as outras dimensões de universo. E que é através do tonal que o homem tem a percepção normal do universo, que se tornou obsessiva e anti-natural. Mas o tonal pode ser modificado para se chegar ao nagual sem ficar louco, sem entrar numa viagem sem fim.

III


Don Juan fala sempre em voltar. Isto é, viajar para outros mundos mas sem perder a noção deste mundo. Esse dado é muito importante, pois assim a revelação de Don Juan fica sendo uma resposta à altura que os jovens dos anos 60 procuravam. Fica sendo uma sistematização, um aprofundamento da revolução dos anos 60, quando a juventude partiu para uma profunda transformação dos valores. Essa transformação, através do rock, das drogas, era principalmente por uma nova percepção de mundo.

Mas as filosofias orientais não foram capazes de atender, de satisfazer totalmente aqueles que procuravam ir até o fim da revolução. Sintomaticamente, com Don Juan surge um método prático, ocidental, profundamente identificado com a nova mentalidade que está surgindo no Novo Mundo, para aprofundar essa revolução. Isto é: para que cada um siga seu destino mágico, que ninguém mais sofra com o sentimento de culpa, a vida dupla, o vazio, a monotonia, a loucura.

O "sonho" do anos 60 acabou quando os jovens viram que nada tinha mudado, pois a civilização estava intacta e, o que era pior, faturando em cima da revolução. Ao fazer essa constatação, John Lennon voltou para velhos clichês revolucionários, que abandonou logo depois para voltar ás raízes do rock e fazer outros tipos de procura. Ao bater a cabeça contra o muro, John Lennon se poderia recair no velho clichê da alienação. Esta é sua proposta na música Imagine: fazer as pessoas esquecerem que há países, guerras, fome, etc.

Mas não é isso que Don Juan propõe, é exatamente ao contrário: Ele quer que Castaneda, não se aliene e que abra os olhos para o universo. Não propõe a fuga do mundo. Ele quer que Castaneda enfrente o mundo com outros olhos, outras atividades. Ele quer que Castaneda faça com que a percepção imposta pelo poder desmorone a qualquer hora . Isto é: que não haja sonho mas abertura para outras realidades. Que não lamente nada (como faz Lennon em Imagine) e que seja mágico sempre. A contribuição mais importante de Don Juan para esta revolução é o uso consciente dos alucinógenos para romper com a visão normal de mundo, sem se viciar nos seus efeitos. Don Juam diz só os alucinógenos podem tirar o homem do seu marasmo sensorial, mas avisa que eles são só um impulso, que o mais importante é o seguir a coisas sem nenhuma ajuda exterior. Cada um deverá cumprir seu próprio destino. E esse destino, inevitavelmente, será belo, mágico, grandioso, pois um homem que luta pelo conhecimento não ficará fora da verdade do universo.


Esta é a primeira revelação exclusivamente americana: foi feita por um homem que nasceu no Brasil para outro que nasceu na América do Sul e fez sua formação cultural nos Estados Unidos. Foi ter nascido na América do Sul que inclinou Castaneda para o estudo das plantas alucinógenas e foi ter estudado numa universidade importante que lhe deu condições para sistematizar a iniciação de Don Juan, de uma maneira que pudesse ser assimilada pelas pessoas civilizadas. Durante todo o aprendizado, Castaneda faz todas as perguntas que qualquer civilizado comum faria.

A proposta de salvação feita por Don Juan à humanidade é a contribuição espiritual do povo que se formou na América: sem vínculos, debochado, sincero e diretamente ligado em todas as nossas fraquezas e na maneira eficiente de superá-las e encontrar a salvaçáo. É a proposta radical de um povo explorado. Don Juan diz que os feiticeiros índios saíram ganhando com a exploração européia pois se refugiaram no único lugar onde o homem branco jamais iria entrar: no nagual.

Se a revelação for encarada como uma religião (o termo é perigoso devido à experiência negativa das religiões) no seu verdadeiro sentido, de religar o homem ao universo, pode-se dizer que esta uma religião de batalha. Don Juan pede que as pessoas assumam a responsabilidade de viver num mundo maravilheso. Pois ele não recebeu a luz do alto, como nas outras revelações, mas conquistou-a duramente depois de muita experiência, vivendo como índio explorado pelos brancos. Quem ensinou os segredos para Don Juan não era ninguém especial, era um feiticeiro, um homem.

A saúde de Don Juan não permitirá que ele seja sacralizado. Como endeusar um cara que diz bosta, fresco, gosta de tudo, não reprime nem propõe repressões, é debochado, sabe músicas mexicanas vulgares, investe na bolsa de valores? Don Juan não propõe o desvendamento do mistério (quem somos, de onde viemos, para onde vamos), mas a utilização dos mistérios para a felicidade. Jamais fala em Deus, mas nos poderes que governam o mundo.

Don Juan não acena com a vida eterna mais com a felicidade nesta vida, através de uma vigilância contínua e de um conhecimento claro sobre as coisas. E mesmo que as pessoas não queiram se aprofundar nas plantas alucinógenas, elas poderão praticar, por exemplo, os exercícios de dominar os sonhos (viajando através deles), como perder a importância própria (praticamente e não através do falso sentimento de "humildade") e como conviver com sua morte. O medo da morte e o que levou o homem a construir o mundo de paranóia em que vivemos. Quanto mais a humanidade tentou se afastar de morte, isto é, quanto mais tentou ser imortal através da ciência, da repressão, da alienação, mais rodeado ficou dela, como provam os arsenais de guerra cultivados por todos os países do mundo.

A grande contribuição para o mundo ocidental é o método de Don Juan para cada um se libertar do complexo de culpa, do falado "pecado original" pregado pela Igreja católica, que e uma fonte cotidiana de dor e insatisfação. Dizendo que nada tem importância, Don Juan propõe uma forma eficiente de romper com o passado (todas as raças do mundo estão nas Américas, continentes sem vínculos com o passado, onde as coisas poderão surgir da realidade presente).


Dessa forma, ela aponta uma forma correta de todos renascerem. É a volta da inocência. Se cada um decide o que é importante (a tarefa do guerreiro), então o tudo está por ser feito. É o fim da transação mórbida com a morte, que é praticada por todas as religiões oficiais. A morte é uma coisa tão viva como escrever um livro e que está sempre a nossa esquerda, na distância de um braço. A qualquer momento ela poderá nos tocar. E pela primeira vez na história uma teoria diz que podemos ser perfeitos neste mundo, sem precisar morrer para alcançar esta perfeição


Um dos filósofos que mais se aproximam da revelação de Don Juan é Nietzsche. Ele se deu conta da importância de corpo para o conhecimento, concebeu a felicidade do homem através de uma filosofia além do bem e do mal, destacou a importância de se viver como um guerreiro, enfrentando a vida, não tendo limites de vôo e se relacionando de maneira aprofundada com a natureza. O problema de Nietzsche é que ele seguiu a tendência de um civilizado comum ao transformar todas essas iluminações em obsessões, dando importância exagerada aos seus sentimentos e ao desprezo pela civilização.

No fim, a filosofia de Nietzsche, que devia ser da saúde, fica também como uma coisa mórbida. Ficou muita pesada, obsessiva e irreal, apesar da dose de verdade contida nela. Irreal porque e impossível para nós viver como Zaratustra (mais um personagem literário de que uma pessoa real) mas é perfeitamente possível viver como um guerreiro. Além disso, Nietzsche não tinha a clareza de Don Juan, nem podia ter, pois era um civilizado, sem nenhum conhecimento das coisas misteriosas que os índios sabem e trouxeram até a nossa época.

VI


Estas são as razões que estão levando milhões de pessoas a comprarem os livros de Castaneda. É a vontade que todos tem de se encontrar, de se salvar e não a vontade que as pessoas tem de se alienar, de fugir da realidade, como pensam os críticos brasileiros. Estes é que estão com os olhos fechados para as coisas novas que estão surgindo no mundo. São estes é que estão procurando se alienar quando colocam ou procuram colocar as verdades simples numa prateleira, sem analisa-las, sem verificar suas causas. Essa alienação é um sentimento generalizado na imprensa, o medo do sistema pelas grandes transformações da humanidade, nessa época de transição social e cultural.


Pois estas pessoas não estão atentas a uma verdade: pela primeira vez na história da humanidade existe uma estrada real que poderá levar qualquer um à totalidade do ser. Se todos tomarem consciência que o verdadeiro par do ser humano não é o bem e o mal, espírito e matéria e sim o tonal e o nagual, a humanidade poderá finalmente partir para uma vida impecável (limpando o tonal) e fazendo viagens seguras ao nagual, aquela parte desconhecida do ser que não existe no céus mas na frente dos nossos olhos e dentro de nós.

Só dessa maneira, vivendo como um guerreiro, e chegando ao conhecimento através da totalidade do ser é que a humanidade poderá enfrentar os umbrais que se aproximam. É importante destacar aqui que Castaneda começou sua viagem através de um relacionamento com uma entidade da natureza (Mescalito, que existe dentro de peiote). Não seria essa a forma que a natureza encontrou de salvar o homem da auto-destruição? Não estaria a natureza ameaçada lembrando ao homem seu verdadeiro destino? Não seria essa a revelação que dá acesso ao poder para todas as pessoas?


Deve-se dizer, ainda, que Don Juan rompeu com todas as tradições. Ele recebeu o conhecimento da tradição indígena, mas não guardou para si ou para o seu discípulo. Permitiu que o segredo fosse divulgado. "O segredo era uma rotina como qualquer outra", diz ele.

Por enquanto, revelação está muito bem disfarçada de best-seller. O interessante é notar que a coisa mais explosiva que existe atualmente as livrarias, que são estes quatro livros, esteja tão relegada pela cultura oficial. Isso prova a importância da revelação, pois só as coisas verdadeiramente novas são desprezadas ou perseguidas. Felizmente, os livros de Castaneda são apenas desprezados, e não poderia ser de outra forma, pois o sistema teme cair no ridículo se queimar livros que ensinam a gente a voar.

Fatalmente surgirão os próximos livros de Castaneda. Pois pôde-se notar que ele não está a fim de deixar seu relatório incompleto (um guerreiro cumpre sua tarefa até o fim e depois se retira se remorsos nem dúvidas). Cada livro de Castaneda elucida todas as perguntas do anterior crescendo sempre em concentração de informações. ) Novas perguntas surgem a partir do fim do último livro, quando Castaneda e seu companheiro Pablito se atiram do Penhasco pois estará faltando o relatório da sua viagem ao nagual e a maneira como um civilizado vive como um guerreiro. Talvez este novo livro (ou novos livros) surjam daqui a dez anos ou mais, quando Castaneda tiver coisas realmente novas para contar.

Deve-se destacar a importância que essa revelação terá na vida e no pensamento da humanidade, principalmente das gerações mais novas, que já tiveram uma espécie de iniciação coletiva com o rock, as drogas e a volta ao oriente. Essa importância crescerá nos próximos anos à medida que for aumentando a coragem das gerações de 1950-60 em levar a sua revolução até o fim. Dentro de nós e o único lugar que ainda temos.


*Este ensaio foi escrito em 1974 pelo jornalista brasileiro Ibral Vitti. Feito com o impacto da recepção dos quatro primeiros livros (até Porta Para o Infinito) traz uma abordagem interessante, que busca sobretudo dimensionar a obra em sua verdadeira importância, diante do menosprezo da crítica oficial.

Slide..





marcia alcantara 10/03/2008

sexta-feira, 7 de março de 2008

Oficina Anselmo Vasconcellos Sesc

Cloudbuster

Videoteca

Vamos aproveitar esse espaço para fazer uma videoteca também!!
Em meio a pots, ensinamentos e pensamentos teremos videos...
Uma zona Livre...

Entrevista com nosso dinamizador Anselmo Vasconcellos

Foto!!

Primeira fotinha da galera da temporada atual (3ª Temporada)

Teremos mais!!

Anselmo Vasconcellos em República dos Ratos

Postagem do meu Blog pessoal

2008


Nesse ano novo quero água fresca, doce e salgada...
Quero os amigos de longe pertinho e os de perto juntinhos...
Quero meu filho mais lindo do que nunca...
Quero ficar magrinha...
Quero aprender mais de tudo que existe...
E esquecer de tudo que é triste...
Quero muitos shows lindos, que me fazem sentir viva...
Quero a vida do jeito que vier, de preferência bem colorida...
Quero os resultados positivos dos vestibulares...
E negativos de todos os exames de sangue...
Quero andar na rua sem olhar pra trás...
Quero abstrair tudo que não existe mais...
Quero amar o grande...
E amar o pequenininho também...
Quero pessoas novinhas, e pessoas velhas de guerra...
Quero cheiro de brinquedo novo...
E cheiro de comida gostosa...
Quero paz, mais paz do que saúde até...
Quero dinheiro só pra não precisar perder a paz, nem quero muito dinheiro não...
Esse ano novo quero cores, quanto mais cores melhor...
Quero muito branco... verde, amarelo, azul, rosa, roxo, cinza, vermelho, e quero preto também...
Quero liberdade...
Liberdade para ser, ter, querer, amar, sentir e viver...
Quero ser eu...
Quero me mostrar a todos...
Quero tudo isso pra 2008...
E o que eu vou dar em troca??
Vou ser o melhor que posso!!
Prometo não sofrer, não me magoar, não me ferir...
As nossas escolhas são as escolhas do mundo!!
A natureza escolheu ser feliz!!!
Nós somos a natureza...
Felicidade não é uma reação, é uma decisão!!
Nesse ano EU DECIDI SER FELIZ!!!

Luana Ribas
31/12/2007
13:09hs

Medo

Estranho quando nos vemos em situações como a que me encontro...
Com vontade de escrever mas com medo de falar besteira.. huahauh aqui é uma zona LIVRE... então porque ter esse medo?
Assunto da última aula, ou melhor dizer do nosso último encontro... medo! E assunto pertinente a toda a oficina, a robotização do ser humano, os conceitos e a cultura que nos faz querer ser pelo menos igual aos que são bons, sendo que penso que sou boa mesmo não sendo igual a ninguém, cada ser tem seu valor único e todos estamos aprendendo a ver esse nosso valor.
Muitas vezes me sinto ainda uma adolescente onde não vejo lugar pra mim no mundo dos adultos pais bem sucedidos, empresários ou donas de casa! Que saco, vontade de gritar e dizer que eu não quero essa porra! Quero liberdade de ser quem sou, de pensar como quero, de mudar meus conceitos ao tempo que eu bem entender! Puta quil pariu!! Me sinto a vontade demais com a turma dos transgressores, sou um ser apaixonado, me apaixono pelas coisas, pelas pessoas... Pode parecer balela, pode ser cliché, mas a umas 4 semanas venho sentindo que encontrei meu lugar ao sol... Encontrei o caminho que quero trilhar, e posso ainda mudar de ideia, olha que maravilha!
Bem, só comecei a escrever para transpor a barreira que eu senti ao ler os textos inteiramente bem elaborados e bem escritos do Anselmo, mas... como tudo é experiência.. ta ai.. abrindo a zona para falar sobre todo e qualquer assunto.
Bjus a todos!

Luana Ribas

quinta-feira, 6 de março de 2008

Um assunto Pertinente ao Blogger

IMAGINÁRIO DA CIBERCULTURA. ENTRE NEO-LUDDISMO, TECNO-UTOPIA, TECNOREALISMO E TECNOSURREALISMO.
"Your idea is crazy, but it isn't crazy enough to be true"
Neils Bohr

O imaginário da cibercultura é permeado por uma polarização que persegue a questão da técnica desde os tempos imemoriais: medo e fascinação. O que vemos hoje, com o desenvolvimento da cibercultura (Internet, realidade virtual, cyborgs, hipertextos, etc.), é o acirramento da querela entre o que Umberto Eco chamou de apocalípticos e integrados[1]. O que surge nesse final de milênio é a radicalização dos debates intelectuais sobre a cibercultura entre aqueles que são taxados de neo-luddites (contra a euforia tecnológica) e os que são chamados de tecno-utópicos (promotores dessa mesma euforia).
Com o objetivo de esgotar a querela e instaurar o consenso, um grupo de intelectuais americanos criou, em março de 1998, uma corrente de pensamento e posicionamento em relação à tecnologia batizada de "Tecnorealismo"; uma espécie de movimento intelectual pelo bom senso e pela frieza nas observações e análises sobre a cultura tecnológica contemporânea. Nem luddites (pessimistas-apocalípticos) nem utópicos (otimistas-integrados), os tecnorealistas, como o nome expressa, pretendem-se realistas (?), sendo a voz da razão, da objetividade e, mais do que isso, da neutralidade. Eles buscam encontrar a posição do meio, plantar-se no centro do debate sobre os impactos sociais das novas tecnologias de comunicação instaurando (impondo?) o consenso. Mais do que nunca a questão da técnica emerge dessa mistura esquizofrênica de amor e ódio.
Vamos tratar aqui da polarização do imaginário social da técnica contemporânea, tentando mostrar que o movimento tecnorealista não passa de uma cruzada contra as posições extremadas de otimistas e pessimistas, buscando a via racional da cibercultura. Nesse sentido, talvez estejamos mais próximos de um tecnosurrealismo (R.U.Sirius) do que da unanimidade da visão tecnorealista. Como vimos na pequena digressão histórica dos primeiros capítulos (necessária para compreendermos a origem dessa tensão), essa polarização não é um fato novo na história da técnica.

Neo-luddismo e Tecno-utopia.
A cibercultura contemporânea vai acirrar a ambigüidade ancestral que está na origem do fenômeno técnico. Estamos hoje no fogo cruzado entre intelectuais que associam uma postura "crítica" com uma visão negativa da tecnologia (por exemplo Virilio, Baudrillard, Shapiro, Postman) e aqueles ditos utópicos, que vêem nas novas tecnologias um enorme potencial emancipatório, fonte de criação de inteligentes coletivos, de resgate comunitário e de enriquecimento do processo de aprendizagem (Negroponte, Lévy, De Rosnay, Rheingold).
Como vimos essas posturas não são novas, mas fruto do desenvolvimento da tecnologia e de seu imaginário nas sociedades avançadas. Por um lado os neo-luddites que insistem em regular e manter sob controle social as novas tecnologias, alertando contra o seu potencial destruidor (da sociedade, do homem e da natureza). Por outro, os tecno-utópicos que tentam mostrar como as novas tecnologias criam possibilidades inusitadas para a humanidade, sendo uma espécie de panacéia contra os males da tecnocracia moderna.
O neo-luddismo é inspirado no movimento Luddites dos operários ingleses do século XIX que protestavam e quebravam máquinas em plena revolução industrial com medo de perderem seus empregos, a partir da liderança de Ned Ludd (que deu nome ao movimento), "a revolta dos luddites tornou-se exemplo legendário de um movimento anti-tecnológico "[2]. O movimento começou em Nottingham em 1811 e se espalhou pelas fabricas de Yorkshire e Lancashire continuando até 1816 quando começou a enfraquecer. Hoje eles estão presentes na Internet com o intuito de desacelerar os ritmos da informatização da sociedade alertando contra os malefícios da cibercultura[3]. Um dos expoentes é o pensador francês Paul Virilio que, entre outros livros, publicou um de entrevistas com o sintomático título de "Cybermonde. La Politique du Pire"[4]. No site dos luddites on-line encontramos essa introdução[5]:
"Do you loathe computers? Does advanced industrial society really annoy you? Looking for a bike lane on the information superhighway? Luddites On-Line is the only place in cyberspace devoted exclusively to luddites, technophobes and other refugees from the Information Revolution. Our user-friendly graphic interface allows you to discuss strategies for undermining the growing cybourgeoisie and explore luddite-related links on the hated Internet. We even have t-shirts (printed by hand of course). Feeling like roadkill on the infobahn? Tune in, turn off and click here.

Os tecno-utópicos, embora não reivindicando o rótulo, são tidos como aqueles intelectuais para os quais as novas tecnologias representam um novo patamar no desenvolvimento tecnológico do Ocidente, abrindo possibilidades até então inexistentes de comunicação não massificada, de acesso hipertextual à informação e de criação de coletivos inteligentes. Para os tecno-utópicos, as novas tecnologias de comunicação (digital, multimodal e imediata)[6] causam uma reestruturação das estruturas de poder vigentes (mediático, político, social), descentralizando-o. Não é a toa que Negroponte clama por uma "Vida Digital"[7] e Pierre Lévy por uma "Inteligência Coletiva"[8].

Tecno-realismo.
"As technorealists, we seek to expand the fertile middle ground between techno-utopianism and neo-Luddism. We are technology "critics" in the same way, and for the same reasons, that others are food critics, art critics, or literary critics. We can be passionately optimistic about some technologies, skeptical and disdainful of others. Still, our goal is neither to champion nor dismiss technology, but rather to understand it and apply it in a manner more consistent with basic human values.
Manifesto Tecnorealista

O movimento tecnorealista surge nos EUA com o objetivo de encontrar o caminho do meio, alternativo tanto à tecno-utópicos como à neo-luddites. O movimento foi criado 12 de março de 1998 a partir de um encontro de 12 escritores e intelectuais no Bistrô Les Deux Gamins, no Greenwich Village em Nova York. Entre os fundadores estão David Bennahum (Wired, Spin), Brooke Shelby Biggs, Paulina Borsook (autor de "Cyberselfish"), Marisa Bowe, Simson Garfinkel, Steven Johnson (Feed), Douglas Rushkoff (autor de "Cyberia"), Andrew Shapiro (Harvard Law School), David Shenk (autor de "Data Smog"), Steve Silberman, Mark Stahlman e Stefanie Syman (Feed).
O movimento foi criado a partir de um documento proposto por Shapiro, Shenk e Johnson[9]. Hoje o movimento tem um site na Internet (www.technorealism.org), uma lista de discussão (getreal-l[10]) e mais de 1500 assinantes. O movimento tecnorealista, através do seu manifesto, expõe sua visão sobre a cultura tecnológica contemporânea e define sua posição:
"the heart of the technorealist approach involves a continuous critical examination of how technologies -- whether cutting-edge or mundane -- might help or hinder us in the struggle to improve the quality of our personal lives, our communities, and our economic, social, and political structures. In this heady age of rapid technological change, we all struggle to maintain our bearings. The developments that unfold each day in communications and computing can be thrilling and disorienting. One understandable reaction is to wonder: Are these changes good or bad? Should we welcome or fear them? The answer is both. Technology is making life more convenient and enjoyable, and many of us healthier, wealthier, and wiser. But it is also affecting work, family, and the economy in unpredictable ways, introducing new forms of tension and distraction, and posing new threats to the cohesion of our physical communities." [11]

O manifesto tem oito pontos assim explicitados[12]:
1. A tecnologia não é neutra. "Uma grande incompreensão de nosso tempo é a idéia de que as tecnologias estão completamente livre de influências - porque são artefatos inanimados, elas não promovem certos tipos de comportamentos em detrimento de outros. Em verdade, as tecnologias seguem de maneira intencional ou não intencional as inclinações sociais, políticas, e econômicas. Toda ferramenta proporciona para seus usuários uma maneira particular de ver o mundo e caminhos específicos de interação com o outro. É importante para cada um de nós considerar as influências das várias tecnologias e procurar aquelas que refletem nossos valores e aspirações".

2. A Internet é revolucionária, mas não utópica. "A Rede é uma ferramenta de comunicação extraordinária que provê oportunidades novas para pessoas, comunidades, negócios e governo. Como o ciberespaço se torna mais povoado a cada dia, ele assemelha-se a uma grande sociedade em toda sua complexidade. Para todo aspecto potencializador e iluminador da Rede, haverá também dimensões que são maliciosas, perversas, ou bastante ordinárias".

3. O Governo tem um papel importante na fronteira eletrônica. "Ao contrário de algumas reivindicações, o ciberespaço não é formalmente um lugar ou jurisdição separada da Terra. Os governos deveriam respeitar as regras que surgiram no ciberespaço, eles não deveriam abafar este mundo novo com regulamentos ineficientes ou censura; é tolo dizer que o público não tem nenhuma soberania em relação ao que um cidadão errante ou uma corporação fraudulenta faz on-line. Como representante das pessoas e o guardião de valores democráticos, o Estado tem o direito e a responsabilidade de ajudar a integrar o ciberespaço à sociedade convencional. As inovações tecnológicas e as questões de privacidade, por exemplo, são muito importantes para serem regidas apenas pelas forças do mercado. As empresas de software têm pouco interesse em preservar padrões abertos que são essenciais para que uma rede interativa funcione. Os mercados encorajam a inovação, mas eles não necessariamente asseguram o interesse público".

4. Informação não é conhecimento. "Ao redor de nós, a informação está se movendo mais rapidamente e está ficando mais barato adquiri-la, e os benefícios são manifestos. Isso dito, a proliferação de dados também é um sério desafio e requer novas medidas de disciplina humana e ceticismo. Nós não devemos confundir a excitação em adquirir ou distribuir rapidamente a informação com a tarefa mais assustadora de converter isto em conhecimento e sabedoria. Embora com o avanço dos nossos computadores, nós nunca deveríamos usa-los como um substituto das nossas próprias habilidades cognitivas básicas de consciência, percepção, argumentação e julgamento".

5. Interligar as escolas não as salvarão. "Os problemas com as escolas públicas da América --fundos disparatados, promoção social, classe inchadas, infra-estrutura deficiente, falta de padrões-- não tem quase nada a ver com a tecnologia. Por conseguinte, nenhum aporte de tecnologia conduzirá à revolução educacional profetizada por Presidente Clinton e outros. A arte de ensino não pode ser reproduzida por computadores, a Rede, ou por ´educação à distância´. Estas ferramentas já podem, claro, potencializar experiências educacionais de alta qualidade. Mas confiar nelas como qualquer tipo de panacéia seria um engano".

6. A Informação quer ser protegida. "É verdade que ciberespaço e outros recentes desenvolvimentos estão desafiando nossas leis de proteção aos direitos autorais e à propriedade intelectual. A resposta, entretanto, é não esmagar os estatutos e princípios existentes. Ao invés, nós temos que atualizar leis e interpretações antigas de forma que a informação receba a mesma proteção que existem no contexto das velhas mídias. A meta é a mesma: dar para os autores controle suficiente sobre o trabalho deles de forma que eles tenham incentivo para criar, mantendo o direito do público para fazer livre uso daquela informação. Em nenhum contexto a informação quer 'ser livre'. Ela precisa de ser protegida".

7. O público possui as ondas aéreas. "O público deveria beneficiar-se do seu uso. A recente abertura do espectro digital deu margem para o corrupto e ineficiente abuso dos recursos públicos na arena da tecnologia. O cidadão, de forma coletiva, deveria beneficiar-se do uso de freqüências públicas e deveria reter uma porção do espectro para acesso público a usos educacionais, culturais. Nós deveríamos exigir mais uso privado da propriedade pública."

8. Compreender a tecnologia deveria ser um componente essencial de cidadania global. "Em um mundo dirigido pelo fluxo de informação, as interfaces--e o código subjacente--que faz a informação visível está se tornando uma enorme e poderosa força social. Entender as forças e limitações e até mesmo participar na criação de ferramentas melhores, deveria ser uma parte importante na constituição de um cidadão envolvido. Estas ferramentas afetam nossas vidas tanto quanto as leis e nós deveríamos sujeita-las a um mesmo escrutínio democrático".

Realistas?
A partir dos oito pontos várias reações surgiram no ciberespaço como o site do "tecnosentimentalismo"[13], que faz uma paródia do movimento clamando não por um tecnorealismo mas por tecnosentimentalismo, ou o artigo "tecnosurrealismo"[14] de R.U.Sirius, editor da revista californiana (cyberpunk) Mondo 2000, tentando mostra o delírio da imposição do realismo. Vamos voltar mais tarde a esse ponto.
O que pretendemos aqui é fazer uma análise crítica do movimento a partir de suas premissas básicas e dos oito pontos explicitados no seu manifesto[15]. O que alguns críticos vão reter dessa proposta é algo próximo do que diz Gunn: "nós somos críticos da tecnologia, da mesma maneira e pelas mesmas razões que outros são críticos gastronômicos, críticos de arte ou críticos literários."[16]
Poderíamos começar nossa análise explorando o próprio nome do movimento: tecnorealismo. Várias questões emergem: em meio à falência das ideologias (os meta-relatos da modernidade) será possível sustentar mais um "ismo"? Numa época de profundas transformações e incertezas será possível atingir a "realidade" das coisas, ainda mais levando em conta as rápidas metamorfoses do fenômeno técnico? Os tecnorealistas parecem dizer que sim ao querer instaurar um "racionalismo realista" com pretensão à criar o consenso, na herança do pensamento crítico frankfurtiano. A questão aqui é epistemológica: será possível instaurar um novo projeto racionalista em meio a uma contemporaneidade em que o real há muito deixou de ser uma evidência em vários campos (da física à biologia, das mídias de massa à realidade virtual...)? Será possível instaurar o consenso? Nesse sentido, não seria o movimento tecnorealista um resgate da perspectiva moderna ("crítica"), tentando dar um ponto final a essa suposta infantilidade que é ser simplesmente contra ou a favor?
Para responder a isso o movimento tecnorealista argumenta: "...o debate sobre a tecnologia tem sido dominado por vozes extremistas, um novo, mais balanceado consenso tem se configurado. Este documento busca articular algumas das crenças compartilhadas por detrás do consenso, o que temos chamado de tecnorealismo"[17]. Vejamos então os oito pontos do manifesto.
Em primeiro lugar é bom deixar claro que embora o movimento se pretenda planetário (e não é a toa que ele se propaga via Internet) ele é nitidamente americano. A questão da educação (ponto 5) é uma resposta explícita à política americana de interligar todas as escolas e bibliotecas à Internet. Os oito princípios revelam também apenas o óbvio e tanto utópicos como Luddites poderiam estar de acordo com quase todos eles.
Que a "tecnologia não é neutra" todos sabemos. Esse alerta foi dado há algumas décadas por pensadores como Ellul, Mumford, Elias, Habermas, entre outros. Tanto utópicos como pessimistas estão de acordo sobre esse princípio, sendo as conclusões daí derivadas divergentes. Para uns a apropriação social resolve essa não neutralidade, para outros ela é fonte de poder e controle.
Dizendo que a "Internet é revolucionária mas não utópica" os tecnorealistas afirmam que as novas tecnologias estão mudando a nossa maneira de ver e estar no mundo, mas que em si elas não são utópicas. Ora, o revolucionário é a essência mesma da utopia. A utopia depois de Thomas More é o "não lugar" inalcançável, imprevisto, ou "o" lugar, o destino último. Fundamentalmente a Internet é utópica justamente por ser revolucionária. Mas parece evidente que os realistas estão chamando a atenção ao fato de não ser possível insistir que apenas uma mudança de cunho tecnológico (o ciberespaço) possa resolver problemas crônicos da sociedade.
A questão da técnica é desde sempre uma questão social. Que os "governos tenham um papel importante na fronteira eletrônica" nos parece o mais óbvio e o mais unanime dos argumentos. Tanto utópicos como pessimistas têm plena consciência desse fato. Uns lutam por regulamentações (censura, controle, normas, leis) outros pela não intervenção total e pela regulação socialmente sustentada, além da garantia de acesso amplo e irrestrito às tecnologias da cibercultura.
O quarto ponto do manifesto chama a atenção para que não confundamos informação com conhecimento. Mais uma vez, esse argumento faz unanimidade. Os pessimistas sabem disso ao afirmar que o que existe no ciberespaço é uma mera circulação de informações, sem necessariamente trazer um conhecimento articulado sobre um determinado assunto. Os otimistas diriam que no ciberespaço estão as informações, antes privilégios de poucos, disponíveis à todos que, de agora em diante, teriam a possibilidade de reuni-las a partir de caminhos próprios (hiperlinks), construindo um conhecimento autônomo. Tanto na crítica como na exaltação do excesso de informação, o que está explicito é o reconhecimento de que a informação não é conhecimento.
Da mesma maneira que a informação não é conhecimento, a simples ampliação do fluxo informativo não garante melhoria na educação. Esse é o argumento do quinto ponto, que parece também não ser muito divergente entre apocalípticos e integrados. Os pessimistas vêem com razão a informatização da educação apenas como uma investida de marketing que atinge hoje várias escolas e universidades. Estas, na maioria das vezes, contentam-se em dispor equipamentos de acesso a Internet como um forma de modernização, sem necessariamente causar alguma melhoria das condições de ensino, não se preocupando com aspectos pedagógicos ou treinamentos de professores. Por outro lado os otimistas têm consciência de que interligar escolas não vai salvá-las, mas que é fundamental que uma escola aproveite o manancial disponível hoje na Internet.
O sexto ponto do manifesto é o mais polêmico e ao mesmo tempo o mais conservador. Diferente da atitude cyberpunk que marcou o inicio da micro-informática e do ciberespaço, pregando que "toda informação deve ser livre", os tecnorealistas buscam proteger a informação ("a informação deve ser controlada"). A máxima cyberpunk nos parece muito mais arrojada, projetiva e crítica do que a máxima tecnorealista. Os realistas estão preocupados, com justeza, com questões como copyright, privacidade e segurança das trocas de informação. Mas da mesma forma estão também os pessimistas. O que torna o ciberespaço um fenômeno social é a disponibilidade dos internautas em fornecer livremente informações as mais diversas, seja em listas, e-mail, grupos de discussão ou paginas Web. O que mantém vivo o ciberespaço é a informação que circula livremente e não a informação controlada. A generalidade da argumentação a torna inócua (é claro que devem existir informações livres e controladas).
O sétimo ponto também não traz discórdias entre utópicos ou pessimistas. Ele afirma que o público possui as ondas aéreas e que devem utilizá-las em seu benefício com atividades educacionais, culturais e afins. Em Technologies of Freedom[18], Ithel de Sola Pool mostra como a utilização de emissões por ondas aéreas ou terrestre depende da tecnologia e da estrutura social que a organiza. Não há nada de radical ou inovador nesse ponto. O mesmo poderia ser dito do último ponto do manifesto que afirma que "entender a tecnologia é um componente essencial da cidadania global". Quem poderia negar essa afirmação?
Tanto neo-luddites como tecno-utópicos fazem coro nesse ponto. Os primeiros vão afirmar que a tecnologia é importante, mas que pode estar atrofiando a dimensão pública e política ao isolar cidadãos que, de agora em diante, apenas comutam informações binarias entre si. Já os tecno-utópicos vão afirmar que o ciberespaço pode proporcionar aos cidadãos uma nova espécie de "agora-eletrônica", um espaço para formação comunitária e criação de coletivos inteligentes, distribuindo e potencializando novas formas de organização social. Vemos assim que não é nenhuma novidade (ou radicalidade) reconhecer que a relação entre as novas tecnologias e a vida social são fundamentais para o exercício da cidadania.
Podemos dizer que o movimento tecnorealista afirma em seus oito princípios apenas obviedades que não necessariamente o diferencia de utópicos ou pessimistas. Ele tenta chamar atenção para si mesmo, criando mais um "ismo" e tentando resolver a dualidade dos que acham tudo bom ou tudo ruim (não teríamos o direito de amar ou odiar a tecnologia?), numa perspectiva meramente elitista, como mostra Katz[19].
O tecno-realismo parece ser assim uma ideologia de tipo moderno que desacredita seus opostos (rapidamente tachados de otimistas ou pessimistas) como excessivos, forcando-os a entrar na realidade das coisas, de ver o real impacto da tecnologia digital na cultura contemporânea. Como mostra Gunn, os tecnorealistas querem dirigir os debates, aparar arestas e instaurar a hegemonia[20].
O tecno-realismo rejeita assim o visionário e a desmesura, desabonando opiniões divergentes, neutralizando-as no suposto excesso retórico. Como mostram alguns autores, o tecno-realismo é um movimento próximo do legal realism de 1900 nos EUA que pretendeu desenvolver um pensamento crítico em relação ao mercado. A máxima parece ser: "minha argumentação é realista, logo ela é racional, neutra, objetiva, diferente dessas outras excessivamente utópicas ou pessimistas". É interessante notar ainda que autores como Shapiro, Borsook ou Sparkman, criadores do movimento, parecem em seus textos muito próximos dos neo-luddites.
Shapiro vai afirmar o caráter não necessariamente democrático da rede e insiste em dizer que esquecemos a riqueza do face a face; Paulina Borsook mostra os problemas do copyright e vai afirmar que a arte eletrônica é plagiarismo; e R. Sparkman vai questionar o papel do computador na escola dizendo que com ele não há revolução na educação. Assim, parece que o movimento tecnorealista foi formado por "neo-luddites reformados" que, sem querer aderir à crítica radical, mas reconhecendo certos benefícios das novas tecnologias, pretendem-se hoje realistas. Isso beira o tecnosurrealismo.

Tecnosurrealismo.
Contrapondo à euforia tecnorealista, R.U. Sirius (que se pronuncia "are you sirius", ou "você é sério") editor da revista Mondo 2000 e cyberpunk convicto, propõe que a cibercultura já passou quatro fases, chegando agora à tecnosurrealista. A primeira fase é conhecida como "Nerdismo Puro", que durou de 1976 à 1988 e caracterizou-se por uma sub-cultura da informática que pregava que toda informação deve ser livre, que o ciberespaço é de todos e que os computadores devem ser acessíveis e de fácil utilização. A segunda é a "Tecno-anarquista", de 1989 à 1992, fase do amadurecimento do ciberespaço e da celebração do caráter rizomático e anárquico da rede. É a época do apogeu da revista Mondo 2000[21]. A terceira fase caracteriza-se pelo "Tecno-liberalismo", tendo como expoente a revista Wired[22], mostrando a força dos conglomerados do capitalismo pós-industrial e a entrada da Internet na era do comercio eletrônico (e-commerce, e-business, e-money).
Usando da sagacidade e ironia que lhe é particular, Sirius sustenta que a quarta fase da cibercultura é a do tecnorealismo, já superada (durou apenas uma semana: de 12 à 19 de março de 1998). Para Sirius todo realismo sem imaginação é mero reducionismo. E é preciso muito imaginação para viver num fluxo de informação caótico que supera em muito nossa capacidade de entendimento. Não existe assim tecnorealismo, já que não é possível, em meio a essa explosão da informação, a existência de um consenso sobre qual o método real, objetivo, imparcial de conhecermos nossa realidade socio-técnica. O tecnorealismo nasceu e morreu (ou já nasceu morto?) pelo desejo impossível de um pequeno grupo da inteligência norte-americana de encontrar, no entendimento dos impactos tecnológicos, um norte em uma época hiperbólica, uma linearidade em uma época hipertextual. Fundam uma espécie de "tecnopomposidade", como mostra Katz[23]. No fundo o problema, como afirma Sirius, não está na escolha legítima entre ser um otimista ou um pessimista. O real problema da cibercultura está no tecnosurrealismo dos que acreditam em tudo e dos que não acreditam em nada.
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